Retórica.

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Retórica (do latim rhetorica, originado no grego ῥητορικὴ τέχνη [rhêtorikê], literalmente a «arte/técnica de bem falar», do substantivo rhêtôr, «orador») é a arte de usar a linguagem para comunicar de forma eficaz e persuasiva.

Passo


queria você 
mas quem me serviram foram outros
no meio desta confusão
você me disse não 
não era pra ser
e eu fiquei para trás, com os loucos 

e rindo, da minha própria desgraça
fiquei, sem ver que eu era visita
que não era permanente 
e pela porta aberta saí 
achei outra e abri na raça 
sentimento bom não se tinha a vista 
e a solidão parecia latente 
e nesta escuridão me vi 

No escuro 
Curei, abracei e sorri 
a mim pertence o futuro 
e a você, apenas o furo 
e o direito
de me ver partir.

Thales de Mendonça

Xenofobia



sempre viram esse país 
como um herbário exótico. 

olham pra cá com estranheza e fascinação
que bonitinhos!
como dançam!
como brilham e rebolam!
brincam bem com a bola!
que corpos deliciosos!
que lugares e alimentos estranhos! 

uma áfrica mais bonitinha, sem tanto crioulo passando fome. 
e aqui, pelo menos, a chance de se deitar com alguém sem pegar doença é maior.

e voltam pra lá
com o samba no pé
a malandragem na mão 
e vão cantando Mulata Ye Ye 
e não querem mais nem saber 
se Brasil 
é com “S” 
ou com 
“Z”

Thales de Mendonça.

DENTRO DE CADA UM, UM RIO DE POEIRA. (3)

   Espreitava pelas venezianas todas as noites. Aguardava a rua ficar vazia, os grilos fazerem mais barulho que a voz dos homens, e então esgueirava-se para fora da cama, depositando os ressecados pés sobre as chinelas de palha amarrada e arrastava-os pela madeira velha, porém varrida, da anciã casa dos Redstone. 
 Assim como ele, era a última de sua família, assim como ele sozinha e rancorosa. Reduzia as velas no quarto antes de se dirigir à janela e encostar o esguio corpo sob as camisolas manchadas e velhas que conservava, nas paredes descascadas da casa. Permanecia respirando contra o papel de parede, sentindo cheiro de suor impregnado durante os anos. Quantos se recostaram próximos a esta janela admirando a rua abaixo? Quantos antes dela tinham recostado suas mãos sobre o mesmo papel de parede, ou até mesmo chocado suas costas contra o mesmo papel durante um sexo mais visceral?
  Perguntava-se em silêncio, arfando, observando com seus belos olhos azuis os seios subirem e descerem enquanto respirava. Os mamilos enrijecidos mandavam pequenos choques de sensação sempre que roçavam a parede, e antes que se perdesse em prazer, voltou seus olhos para fora, para o homem, e se desencostou um pouco mais da parede, para dar espaço ao corpo. Lá estava ele, sentado, como todas as noites, com suas enormes mãos acobreadas pelo sol e pela vida. Os longos e grossos dedos de sua mão seguravam uma cerveja enquanto a outra recostava-se sobre sua espingarda. 
  Quantas noites quisera ser o aço, sentir os dedos bruscos de Randall Mallyster sobre seu corpo, raspando a casca que havia se formado sobre sua pessoa, separando-a dos prazeres da vida. A morte de seu marido matara também suas pretensões de ser feliz.
Morto pelos índios das montanhas que separavam Dustyriver de Rockyend, dera seu último beijo no solo do território indígena, rasgando os lábios com o impacto ao cair do cavalo, batendo os braços e pernas no chão de forma desajeitadas, como sacos de batata ao cair da carroça. O chapéu ganho pelo sogro no dia do casamento voara-lhe da cabeça e jazia sob um arbusto, junto com tiras de couro e poeira que voaram quando o cavalo tombara.  Não podia virar-se para cima devido a flecha atravessada em sua garganta, forçando-o a olhar para o chão, a beijar o chão, mesmo pensando em sua Anabelle a esperar em casa, a ainda donzela Anabelle, que agora lembrava de seu homem como aquele que nunca a tocara, aquele que saíra do foco de sua mente para dar espaço a Randall Mallyster, o eterno desejo.
   Quando ainda menina, via o jovem Randall Mallyster de peito nu ao sol, a reformar o poço com seu velho pai, e costumava, por trás da renda do chapéu, admirar as gotas de suor que lhe desciam dos braços e seguiam até as mãos. 
As mãos de Randall Mallyster.
Podia se lembrar daquelas mãos envolvendo sua boca e de sua barba recém brotada roçando em suas orelhas quando este veio sussurrar por silêncio. Sua outra mão moveu-se rapidamente para seus pulsos impedindo com que ela continuasse a mover os braços. Não conseguia ver quem a agarrava, e só vislumbrou os olhos de Randall Mallyster e seu sorriso ainda pouco amarelado pela vida quando sentiu a madeira do fim do beco em suas costas. Estavam atrás de duas estalagens abandonadas, não havia percebido como havia parado ali, quando fora arrastada estava morta de medo e fechara os olhos para rezar pedindo por ajuda, mas agora já não mais queria, era Randall Mallyster que estava ali. Seu Randall Mallyster.
  Quando o gosto do Whisky se fez sentir em seus lábios, Anabelle o ignorou para dar seu melhor beijo ao homem, mas este logo cessou e virou-lhe bruscamente o braço. Era forte, movia o corpo de Anabelle com tanta facilidade, que sentia-se feita de trapos.  Ainda tentava compreender o que estava para se suceder quando Randall a penetrou, e o cheiro dos dedos dele invadiram suas narinas novamente enquanto ele tampava sua boca com a mão livre.  As lágrimas verteram de seus olhos enquanto a dor vinha, sentiu-se rasgar por dentro, mas sentia-se quente e feliz. Aos poucos, acostumara-se com a dor e parara de grunhir, dando lugar a pequenos gemidos quando percebia prazer. 
Com o silêncio de Anabelle, Randall aliviara os lábios da menina para passar a mão por seus seios ainda crescendo, miúdos e rasos, mas pareciam agradá-lo, isso importava.
   Gostaria que ele a possuísse de novo. Naquela noite, quando ele a deixara jogada com as pernas fracas demais para caminhar para casa, Anabelle voltara, horas depois, subira pela escada externa e pela varanda acessou seu quarto, sem acordar a ninguém, como fazia todas as noites quando saía para caminhar. Deitada em sua cama desejou que seu cheiro nunca a abandonasse, dormira do jeito que estava e no dia seguinte limitou-se a esconder as roupas manchadas e o lençol com sangue. 
Ali, da janela, pensava em chamar pelo homem e abrir sua porta, pegar sua mão e conduzi-lo a sua cama vazia, pedir carinhosamente que a faça mulher como no dia atrás das estalagens, quando levara sua donzelice, que cumprisse o papel que lhe era incumbido desde que nascera, era destinado a lhe fazer mulher. Deus havia arranjado uma maneira de fazer com que seu marido não a tocasse uma única vez sequer, era prometida para Randall, não para ele. 
  Quando ele se levantou, ergueu suas sobrancelhas abrindo os olhos tentando enxergar melhor na noite escura, e acompanhou a silhueta do homem pela casa, parando silenciosamente na sala, depositando a espingarda na mesa, a garrafa de cerveja atirada à pia da cozinha, e corpo movendo-se novamente até o corredor.
   Pela janela via o corredor que levava aos quartos, sendo o primeiro do menino Ruffneck e viu quando Randall alcançou o topo das escadas, meio cambaleante pela cerveja, e bateu os cascos de sua botina até a porta do rapaz. Achou que o homem fosse entrar, mas limitou-se a sentar no chão a soleira da porta e tirar o calçado. Respirou fundo e  depois de instantes que para Anabelle mais pareceram horas, ergueu-se finalmente, desabotoando o macacão negro agora pela sombra  e desaparecendo ao fechar a porta. Ainda sem piscar, viu quando a porta vacilou e começou a abrir, mal fechada, e a cada segundo a pequena fresta tornava-se uma porta escancarada.

Thales de Mendonça

Dentro de cada um, um rio de poeira. (2)

Daryll um dia acordara sem mãe. Não questionava muito sobre como as coisas caminham na vida, mas naquela manhã quando abrira os olhos e contemplara as velhas toras de madeira que formavam seu teto, chorou por não saber a resposta sobre o paradeiro da mãe. 
  Não era bobo, tinha quinze anos, braços fortes e músculos bem delineados, apesar de magro. Herdara os olhos azuis, as sardas pelas bochechas e o felpudo cabelo vermelho que se emaranhava e depois se rarefazia na nuca, se tornando mais ferrugem e menos rubro, aproximando-se do tom da pele do rapaz.
  Quando sozinho, deitava longe a blusa puída, a calça reforçada com tiras de couro, as calçolas amareladas de tanto cozer e matinha apenas as botinas. Enquanto o vento passava carregando grãos de poeira para o vão entre suas pernas,ficava a admirar os pelos vermelhos que surgiam aos tufos em lugares diversos.
  O pênis, ainda rosado como se lembrava, porém muito maior do que antigamente,  ultimamente havia ganho uma penugem acobreada que subia para o umbigo e lá estreitava-se em uma linha contínua que terminava no vão entre o abdômen. As pernas, antes apenas salpicadas de sarda, tinham agora uma profusão de fios estranhos em seus lugares. Nestes poucos momentos, divertia-se e sorria, apesar de nunca mostrar os tortos e amarelados dentes a mais ninguém que não fosse sua  doce mãe. 
  Cecille. Lembrava-se de como ela penteava seus cabelos e sussurrava velhas canções em seus ouvidos, como lhe ensinava as artes da caça e da pesca, e de como sua voz era suave mesmo quando suplicava ao irmão que parasse de bater em Daryll.
Acordara um dia depois de levar uma surra e ela já lá não estava. Perguntou ao tio onde estava a mãe e como resposta recebeu apenas silêncio, e borrifadas de cachimbo. Por três dias vasculhara a casa, mas todas as coisas da mãe haviam sumido, roupas, adornos, tudo simplesmente não estava mais lá. 
Randall sequer acompanhava os movimentos de Daryll com os olhos. Permanecia em sua cadeira de balanço na varanda, com a espingarda no colo a beber cerveja, mascar fumo e de vez em quando, fumando seu cachimbo. Enquanto o menino chorava e gritava em busca da mãe, Randall mascava uma vez, e outra, e mais outra, e cuspia no chão. Lá estava a saliva da indiferença, pensava Daryll. 
 
 Hora andava sozinho pela cidade, hora com o primo Perryn Ruffneck, adotado pela família Mudhall quando o último dos Ruffneck morreu na mão de foras-da-lei, do outro lado das montanhas em Rockyend, a três dias de viagem de Dustyriver. Perryn era o único que ouvia a voz de Daryll com frequência, já que este não conversava muito.
  Daryll não gostava das pessoas. Via em todos apenas seu lado ruim, e não confiava em ninguém, acreditava que virar as costas para alguém era pedir para que lhe enfiassem uma lâmina e lhe tomassem a vida. Acostumado a perder as coisas para a vida, Daryll confiara apenas em sua mãe, e em Perryn, por este ser burro o suficiente para lamber uma vela para apagá-la se o pedissem dizendo “passe saliva” .
 
 Em casa, só Randall e ele, chamava-o de senhor, dava boa noite, fazia o jantar e levanta-se para buscar o único balde de água que lhe era permitido e com ele devia tomar banho, limpar os dentes e lavar o bocado de louça que havia sujado. Randall não exigia muitas explicações de Daryll desde que esse o chamasse de senhor e sempre estivesse em casa do jeito que saira, sem escoriações ou embriaguez aparente. Dizia que um homem faz seu próprio rumo e não deve ser demasiado educado pois educação pertenciam á moças.
  Antes de se deitar, ia até Randall onde este todas as noites misturava whisky e um bocado de leite e lhe dava para tomar. Desde seus doze anos Daryll acostumara a levantar todas as manhãs extremamente sonolento e ainda dopado. O Whisky com o leite sempre o derrubava diretamente para cama, para uma noite sem sonhos e sem escalas para a manhã do dia seguinte.
  Ao acordar, situava-se no mundo olhando para o velho teto de madeira de seu quarto e esperava toda a sensação letárgica passar. Segundo Randall, era bom que Daryll se acostumasse com o Whisky desde cedo, e misturar com leite o tornava mais suportável.  
 Não sabia se estava ficando melhor ou mais resistente, mas demorava cada vez menos o tempo em que ficava andando aos passos curtos, sem roupa pelo quarto, para recobrar o equilíbrio. Quando ainda viva, Cecille ajudava o filho carregando ele pelo quarto, fazendo massagens por todo seu corpo para melhorar a circulação e  aliviar as dores que sentia nas partes baixas, o Whisky devia forçar algo pois sentia-se sempre dolorido em suas genitálias ao acordar, e estas só paravam de latejar depois de algum tempo de sol, mas não contava isso a mãe, e agora nunca mais contaria.

Thales de Mendonça

Dentro de cada um, um rio de poeira. (1)

Muito se admirava que não se culpasse pela morte da irmã. Sentava-se todos os dias na velha cadeira de balanço na varanda corroída pelos cupins, pelo vento e pela vida dura da região. Não se podia dizer com gosto que Mallyster era uma família que vivia numa região próspera. Na verdade, o lugar era um belo de um buraco. Com apenas uma única avenida,e com os prédios comerciais apinhados em toda sua extensão, a pequena cidade de Dustyriver era um amontoado de feno e fumo mascado. 
  Abandonados pelo mundo, os habitantes da toca de cascavel que chamavam de sua terra comiam carne de lagarto e bebiam a pouca água do poço, dos Mallyster é claro.
Tomavam conta do poço havia duas gerações, e por muito tempo não houveram problemas na cidade em relação as porções de água, todos pegavam a quantidade que lhes cabia, e o velho Mallyster se bastava em olhar o mover dos baldes e o escorrer da escassa água em direção à terra batida, consentir com a cabeça e fechar a porteira por trás de seu visitante após sua partida. Três gerações depois e lá estava o empecilho, e velho e carrancudo Randall Mallyster, o último deles, já que o pequeno Daryll era mais Ruffneck que Mallyster e não ficaria para cuidar do poço, não tinha esse direito. 
Randall, com seus quarenta e dois anos, era magro como uma espiga debulhada de milho, embalado em um macacão azul roído pelas traças e munido de sua espingarda que pertencera ao avô, sentava-se todos os dias na cadeira de balanço e mascava fumo enquanto bebia cerveja, e se precisasse apontava sua espingarda para qualquer um que sonhasse com a hipótese de pedir acesso ao poço.
   Nas épocas de seca brava, os Mallyster sempre reuniam todos de Dusty em volta do poço e decidiam junto aos patriarcas das famílias quais as porções de cada família, de forma que ninguém morresse de sede e as crianças pudessem lavar suas partes e os velhos limparem suas feridas, mas desde que Randall tinha se tornado o  guardião do poço, em épocas de seca ele simplesmente proibia a todos de se aproximarem do poço, a última pessoa que tentara estava morta, e esta era a própria Cecille Mallyster, sua irmã.
   Doce mulher, Cecille, mãe de Daryll, era a mais delicada da família de truculentos fazendeiros. Única espécime fêmea viva dos Mallyster nos últimos 36 anos, conduzia a fazenda e a família dentro da casa da melhor maneira possível, tentando tornar a vida desgraçada um pouco mais amável para a criança que parira. Apesar dos esforços, Cecille não conseguia parar a fúria do irmão sempre que este acreditava que seu sobrinho merecia um corretivo, contentava-se em ajoelhar e dizer ao filho em voz alta para não lutar e apenas aceitar a lição. 
  Cecille havia se mostrado mais brava do que todos esperavam quando passou por cima das ordens do irmão e pegara água para banhar Daryll. Randall havia dito que seria justo e não pegaria mais água do que necessitaria para mostrar que estava passando pela dificuldade tanto quanto os outros habitantes de Dusty, mas não havia surtido muito efeito, pelo contrário, ver Randall se esgueirando no meio da madrugada enchendo baldes com sua própria água como um ladrão, tornava as coisas muito mais deprimentes do que já estavam.
  Quando Randall encontrara Cecille penteando os recentemente lavados rubros cabelos de Daryll a espancou tão violentamente que três de seus vizinhos foram de espingardas em mãos aos limites da casa dos Mallyster ameaçar invadir a propriedade. Os gritos cessaram por instantes e o silêncio assaltou a noite, deixando todos apreensivos. Teriam os gritos cessado por intervenção de sua comitiva, ou a senhora Cecille perdera o sentidos? Enquanto aguardavam o parecer do vazio que os tomava, ouviram o couro chocar-se com a madeira e fazê-la ranger, e o bater de botas se fez ouvir por trás da porta de madeira.
     Tomando mais tempo que deveria, Randall Mallyster puxou a primeira porta para trás, e antes que pudesse ser visto, a fumaça de seu cachimbo saiu e cruzou a tela de nylon que separava a casa da nuvem de insetos que anseava em entrar. Quando sua malfeita barba lambida pelo fogo, vermelha como brasa, surgiu iluminada pela brasa do cachimbo, os homens recuaram. Randall era alto, do tamanho de um carvalho velho, riste como um, firme como um, e tinha em seus lábios finos uma baba escura de fumo que escorria nas bordas que parecia veneno.
Com o cinto em mãos e uma garrafa de Brandy na outra, limpou a garganta com um gole antes de cuspir na madeira velha  permanecer no escuro onde seu rosto só se iluminava pela brasa queimando em seu cachimbo. Não foi o primeiro a falar, pois o mais velho dentre seus vizinhos indagou o que ocorria com a senhora Cecille e antes que pudesse terminar a própria dúvida, já emendava uma desculpa e um consentimento de que de fato aquele assunto não era de sua alçada.  Apenas acenando com a cabeça, Randall permaneceu borrifando o ar com fumaça e sugando os lábios para reter o fluxo de baba que lhe escorria. 
Quando Cecille surgiu por trás da tela e disse à todos para voltarem à suas casas pois tudo estava bem, delatou em sua voz cortada um choro contido, e suas mãos, sobre os ombros onde segurava as vestes, roçavam de leve a pele, como uma língua felina roça uma ferida. Devido ao escuro era difícil perceber, mas os garotos dos Mudhall comentaram durante dois dias, escondidos atrás do velho Bar enquanto bebericavam o conhaque roubado com os amigos e trocavam cartas de um baralho erótico, que conseguiram ver devido à luz da brasa, a jovem Cecille virar as costas e exibir a pele marcada pelo cinto do irmão, e as feridas vertiam sangue. Diziam que o momento durara apenas segundos, mas ficaria guardado eternamente na mente. Se as palavras dos Mudhall eram verdade ou não nunca foi sabido, e nem havia necessidade de confirmar, pois as pessoas que contaram as histórias depois as contariam sempre com o detalhe das costas vertendo sangue, e o corpo de Cecille jamais foi encontrado após aquela noite.Dos Mallyster agora restava apenas Randall, sua espingarda e seu poço.
E o pequeno e jovem Daryll.

Thales de Mendonça 

Para o vento e o passado, pedaços de um conto rasgado (3)

  Pérola na lavagem. Era o que diziam. Escutava isso uma vez ou outra quando acabava por aparecer um pouco mais na cena. Fazia o que sabia, do jeito que lhe apetecia, e as pessoas aplaudiam, se emocionavam. Senhoras, tocadas até o último átomo do coração, se levantam com dificuldade de suas acomodações idosas e vem ao seu encontro. Colocam as palmas das mãos, secas e ásperas, sobre as bochechas que já começam a corar, e então vem o beijo, o carinho, a gratidão. Alienígena para ele.
Dentre os pedaços do que um dia já fora uma juventude promissora, ele se destaca, sorri, faz gracejos, encanta os olhos, dança como ninguém e sibila no ar de maneira singular, pérola na lavagem. 
Ele, não sabia se gostava ou não de ser a pérola. Do que adiantava ser a pérola quando sua platéia são porcos? Do que adianta ser a única rosa do planeta se não for pra ser adorada e venerada, perguntara-se a rosa do planetinha, e sofrera, pois seu príncipe lá não estava mais. Para a pequena pérola as coisas não eram diferentes, não esta não havia sequer príncipe, apenas porcos a chafurdar na lama. 

Thales de mendonça

Alcaçuz

Enfiei a mão no bolso e de lá tirei uma cartola cheia de confetes. 
Jogando-os para o alto, arremessei meus sonhos e com eles todas as idéias que seguravam os cabelos no couro e a mente em pé. Abri a boca e cuspi uma chave para uma porta que dava para lugar nenhum. 
Com meus cinco dedos, minhas seis vontades, sete pecados e oito quilos à mais do que o peso recomendado, girei a chave no nada e entrei pra fora de mim mesmo num mergulho horizontal em direção ao céu. 
Perdia o oxigênio, ganhava coragem e com as asas a mim dadas por ícaro, derreti a cera que une a realidade e me BUM!

acabou-se a imaginação.

Thales de Mendonça

Monalisa

Fora ver a Monalisa porque estava velho. A Frase anterior tem o completo sentido quando se compreende que todas as nossas prioridades mudam depois que envelhecemos, e coisas como visitar a Monalisa e vê-la ao vivo antes de morrer, era uma dessas prioridades novas de gente velha. 
  Por trás do vidro e toda a francesada chata, lá estava ela. Velha, com umas cores não muito atraentes, tinha uma testa grande demais, meio gordinha, definitivamente estava meio decepcionado. Não tinha apreço especial pela peça, mas é o tipo de coisa que gostaria de fazer agora que estava à beira da morte. Do que sorria a Monalisa? 
  Guardava para si um sorriso disfarçado de cara de complacência que deixava ele confuso. Todos gostavam da Monalisa, por que diabos não a achara nada demais? Teria novamente feito as coisas da maneira errada? Não sabia. Viera sozinho à Paris, pois não tinha com quem vir. Decidira por não pegar um grupo de excursão até porque não tinha interesse em outras peças, ou muito menos em outras pessoas. Não se dava bem. Cultivava tantos vícios, maneirismos, opiniões e humores, que não agradava.
  Depois de muito tentar, descobrira que agradar era mais difícil que pensava, e resolvera abrir mão do exercício. Não agradava e pronto. As pessoas tendiam a se incomodar com sua presença e sempre o deixavam em situações delicadas sem saber se deveria estar falando ou não, se deveria existir ou não. Confuso. Pessoas únicas demais são, com o perdão da palavra, únicas demais. Algumas só não servem para se adequar. 
  A Monalisa, por sua vez, também era um tanto quanto única. Por mais que existissem as réplicas e as obras semelhantes, nada era, de fato, tão Monalisa quanto a própria Monalisa. Talvez sua beleza não fosse a das mais singulares em sua época, mas aqui, prostrada à frente de seu tempo, conserva um conceito de simetria que agrada, é bela, é única. Por ter tanta representação, e ter se tornado, de fato, um ícone, talvez não fosse mais digna de andar com as demais. 
Cheia de estilos, pinceladas suaves, jogos de luz bem elaborados, era única demais para agradar as demais. Devia ficar ali, atrás do vidro, protegendo as outras de tudo que ela representava. 
  Olhando para os olhos da obra, viu toda a singularidade da mesma, e se sentiu um pouco menos, singular. Achara ali alguém tão inadaptável quanto si próprio e percebera que tinha certo propósito em carregar as características que carregava. Na mão delicadamente imóvel da obra, viu um peso que também carregava e sentiu que agora partilhava e as pernas pareciam aliviar-se. Entendia-se um pouco melhor, esboçava um sorriso disfarçado de cara de complacência que expressava sua harmonia. O mesmo sorriso da Mona, digo, da moça. 

Thales de mendonça  

Mente

Não queria mais sair. Havia encontrado ali todas as coisas que precisava, e finalmente estava em uma posição confortável, apenas para si. Daquela posição poderia olhar com calma por cada uma das fechaduras, cada uma das portas que dão acesso aos milhares de quartos abandonados com lençóis sobre os móveis, sobre as lembranças e sentimentos guardados. 
Pela janela, via as pessoas à sua volta, rondando, conversando e interagindo e instintivamente via sua boca abrir, as palavras saírem e os membros se moverem em resposta, interagia. Sentia-se sempre observador, mas não percebia a sujeira nas lentes do binóculo, ou mesmo nos mosaicos das janelas, ou o vidro da lupa sob a escrivaninha.
Lá, voava. Como havia aprendido nos livros e nos filmes, bastava erguer os pés, pousá-los no ar encenando um degrau imaginário e acreditar o suficiente para depositar o segundo pé. Lá, dentro de seu espaço, subia pelos livros e acaba sob as estantes, olhando tudo de cima, rolando pelo teto com cuidado para não esbarrar no abajur. Amava voar.
Sozinho protegido lá dentro, evitava decepções, desapontamentos e não corria o risco de brincar muito, falar muito ou ir além de onde deveria ir. Ali estava seguro. Não ofendia ninguém. Tinha suas desvantagens permanecer isolado, é claro. Não havia com quem partilhar a companhia, mas evitava frustrar-se com sua própria pessoa.
De todas as coisas, lhe agradava mais o fato de não haver mal entendidos ali. Eram inexistentes, impossíveis e caso existissem, facilmente solucionados, facilmente equacionados e retificados, besteira. Sem mal entendidos, sua vida corria mais fácil, pois são deles que se fazem as maiores decepções da vida. De mal entendidos se extraem os piores sentimentos de negação. Mal entendidos tendem a punir pessoas que geralmente não tem nada com a história, e se tem, não deviam pagar o preço que vão pagar pelo papel na história. 
Esboçou um sorriso com a ideia de uma vida livre de mal entendidos. Longe de todos, de tudo e vivendo em uma realidade apática inteiramente a parte do mundo, sentia-se feliz por não sentir-se pressionado, e mesmo ainda sofrendo por tudo aquilo que acredita não mais sofrer, julga-se feliz o suficiente para seguir em frente, apesar de saber o peso que está depositando sobre seu próprio caminho.
“É gostoso aqui dentro” repetia, em vão.

Thales de Mendonça 

Para o vento e o passado, pedaços de um conto rasgado (2)

Ana não tinha muito o que falar sobre si mesma. Não tinha paciência para se explicar, para discutir e se expor, gostava de falar com os olhos. Com apenas um olhar, deixava claro sua infelicidade com o mundo, com o BBB e com esse monte de homem brocha pelo mundo.Pinto bom é pinto duro.

gritava ela, irritada. 

Thales de Mendonça 

Da origem da Insônia.

E ao olhar para seus problemas, percebe que estão todos suspensos. Sem resolução ou qualquer previsão de tal, permanecem na mente a incomodar e liquefazer toda e qualquer vontade que surja no intuito de executar qualquer tarefa recreativa. Constantemente lembrado pelas circunstâncias da vida, não consegue livrar-se do mau humor constante que ronda as situações delicadas. Ao pensar nos diversos destroncamentos e possibilidades para a mesma problemática, ativa o cérebro nos momentos mais inoportunos. Esquece os olhares, os diálogos e se perde em devaneios que beiram a surrealidade, equilibrando idéias na linha do necessário e desnecessário, se podemos aplicar estes valores. Absorto, perde o sentido e acaba por não solucionar nada e a conquista diária reverte-se em derrota. Devido a suspensão de seus problemas, pensa, reflete, devaneia e não dorme. Mesmo nu nos melhores lençóis.

Thales de Mendonça

Para o vento e o passado, pedaços de um conto rasgado (1)

  Eu pequei. Pequei por ter me deixado levar pelo negócio, e por ter pisado nas marcas do pé de alguém, por um caminho que não era meu, numa terra que não me pertencia e com um fardo que almejava as costas do outro. Embalado pela direção que me deram quando busquei auxílio, continuei seguindo rumo a uma divindade que não idolatrava, estava errado, inteiramente torto e absorto em meus pecados não vislumbrei sequer uma fagulha de consciência até este momento.
Como se um sopro de luz adentrasse minhas pálpebras e consumisse a escuridão que corrompia minha vista, queimei trinta vezes mais rápido o combustível que mantinha em meu âmago e então mudei a direção.

Thales de Mendonça

Menina

Era menina e não podia com aqueles pensamentos. Sentada delicadamente para não amassar o vestido, desceu a mão por entre as coxas e deixou os dedos ali a sentir o calor que pulsava da vulva. Atordoada, tentava compreender o que acontecia com seu corpo. Sentia ondas de calor passarem dos pés a cabeça enquanto um formigamento por trás da nuca e nas extremidades dos mamilos a deixavam inquieta e extremamente desconfortável, mas era gostoso. Olhava para aos mãos dele como um faminto venera um naco de carne. Eram suntuosas, firmes e pareciam agarrar com força, e ela se sentia desamparada.
  A mãe lhe olhava feio estes dias, como quem desgosta dos trejeitos, desça o vestido sua cretina, dizia sempre que via a menina a erguer um bocado o pano para mostrar as pernas aos moços. Invejosa, dizia ela por entre os lábios, enquanto silenciosamente puxava a renda do vestido um pouco mais para cima para chamar a atenção. 
O pai parecia ignorá-la, mas não o fazia de fato. Sempre que deixava a porta do banheiro aberta, podia ouvir os pés se arrastando até a fresta, e acreditava que podia sentir os cílios roçarem o beiral sempre que seu pai se aproximava um pouco demais, tentando ver melhor as curvas que a filha ganhara. Nem para os troféus do menino ele olhava com tanto apreço. 
O irmão era inocente, fazia tudo que lhe pediam e tinha coração de anjo. A mãe precisava de braços fortes para carregar as caixas, lá estava o garoto de quatorze anos,campeão estadual de boxe e duas vezes pior aluno do colégio Procópio Ferreira. O pai precisava de alguém para lhe trazer bêbado do bar do velho azambuja, lá estava o garoto de regata e bermuda de pijama a carregar o pai, um verdadeiro doce, fazia tudo, não reclamava, até parecia abestado. 
Os amigos, alguns mais abusados que outros, pediam um pouco amais, uma mão aqui em baixo da minha bermuda, só brincadeira, só a gente pode saber e todas essas coisas que o débil menino deixava passar despercebido, e fazia, meio rindo, meio babando, alheio as sacanagens que a vida nos traz, principalmente quando os amigos o deixavam sozinho no computador para ver a irmã tomar sol no quintal, e ela mergulhava na piscina, deixava desamarrar um lado do biquíni, se fazia de desprevenida e mostrava um mamilo, era o gozo.
Ela era simplesmente safada, mas não fora sempre. Anos antes era brincalhona, singela e totalmente alheia ao lindo corpo que tinha. Gostava de chá com bonecas, beijinhos nas amigas e desprezar os homens, como toda boa menina. Até ele chegar. 
No primeiro cumprimento na escola, ele a puxara para perto, colocara suas pernas por dentre as dela e a deixou sentir por alguns instantes um pouco do garoto que era, se podia chamá-lo de garoto. Já com seus dezoito anos, estava na sala junto com os de quinze pois desde a sexta não se importava mais com estudos, queria transar pois podia, era todo grande, ajudava sempre na borracharia do pai e seus dedos, por mais grosseiros que parecessem, encontravam o orgasmo de uma mulher em menos de cinco minutos de pesquisa, sem falar de seu membro. Ao ver a menina sentiu enrijecer e logo a abraçou para esconder o volume, o que veio a calhar pois ela, linda e perfeita, era o desejo de qualquer homem.
 Nas primeiras semanas gostava de olhar para ele, mas ele sempre estava por perto, e seus olhares se cruzavam, e ele sempre que passava surrava em seu ouvido palavras em ode à seu corpo, deleitosamente conquistando a mente da garota com a ideia de que ela era extremamente atraente, e deveria se entregar a ele, aquelas mãos. Já convencida de que era sensual, viciara-se na mão dele, e sonhava, às vezes desperta as vezes segundos antes de dormir, com os dedos dele descendo sinuosamente para dentro e…
Era menina e não podia com aqueles pensamentos.  

Thales de Mendonça

ALPHA BETA PARKING LOT

Degosto de estacionamentos
Em pé no meio deles
olhando para toda sua extensão
olho o piche e o cascalho e vejo um enorme espelho

Espelho cinza chumbo
uma vastidão vazia sem rumo
delimitada pela existência de qualquer ser
Olho as linhas amarelas marcando o espaço e vejo um enorme espelho

Uma série de meridianos e outros conceitos
separando as informações em espaços
dentro de um espaço
Olho os carros parados, carros partindo e chegando e vejo um enorme espelho

Todos vem, carregam-se 
levam aquilo que carregam 
E vão, ou vem
Buscando por um pouco mais 
além 
e os que ficam, por um tempo 
ou dois 
ganham um espaço, cativo
e quando já vai se acostumando 
virou freguês, é camarada
enchem a mala, consertam a alça
E vão

Desgosto de estacionamentos.
Olho os conceitos, olho as idéias e a indiferença
e vejo

um enorme espelho.

Thales de Mendonça

Ímpar

Li sobre os números num papel amigo
Teci comentários que me agradaram
soaram bonitos e bem ajeitados
Mostrei para os outros pedindo aprovação
como a criança ao fazer seu primeiro desenho.

Curvaram os lábios
baixaram os olhos
e com vários
nada mal nada mal
me tocaram pra longe
Agradável
bonito disseram
mas não achavam

Percebi que da beleza que me agradava
agradava a mim e só

Era só?
Era muito
Muito só?
Apenas Muito


Levei os comentários para velhos amigos
Me abraçaram
Perguntaram sobre a vida
Vai bem Vai bem
Eu disse
Mas não ia

Queria saber dos comentários 
Interessante, interessante
disseram
e já se voltaram à cevada e as ervas
Bem construído, agradável, simétrico
Achavam, mas não importava
Para eles
Para mim?
Não Mais

Preocupado fui buscar ajuda
Ninguém gostava, ninguém podia 
Sentei, Parei
Li os comentários
Geniais.

Qual era o erro?
Não sabia
Não sabia?
Talvez soubesse 

Olhando pros comentários
Olhei além
Olhei pra mim
e me bastei

Gostei.
Gostei e ponto
Sou um?
Sou uno
Sou ímpar

Porque nasci ímpar
na numerologia
me disseram ser par 
um 8

Olhando bem
Vejo dois ímpares
Um em cima do outro 
Fazendo coisas 
Partilhando um único traço 
sem nunca ser par

Sou feliz sendo ímpar
Mesmo com outro por cima
ou por baixo 

Ímpar
é sempre ímpar 
e nunca par.



Thales de Mendonça
 
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